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O CAVALEIRO DA TOLERÂNCIA

O cavaleiro da tolerância
Nascido em Barra de Guabiraba, pequena cidade da Zona da Mata pernambucana, o brasileiro Antônio Marcos Barbosa da Silva - o Antônio do Glicério -, 35 anos, já fez e passou por quase tudo nesta vida. Em 15 anos de São Paulo, lavou carros, vendeu tapiocas e outras bugigangas para sobreviver, trabalhou nos Correios e foi fiscal de transportes da Prefeitura de Santo André. Tudo isso até ingressar no austero prédio do Tribunal de Justiça, na Praça da Sé, Centro da capital paulista, onde exerce a função de escrevente judiciário. Porém, nada do que fez até hoje lhe dá tanto orgulho e felicidade quanto a luta pela igualdade e respeito ao próximo, não importa se pobre, negro, gay, judeu, evangélico ou nordestino como ele.

Mendigos, sem-teto, drogados
Antônio do Glicério é o soldado da tolerância. Suas armas nessa eterna batalha são uma infatigável disposição física, milhares de panfletos antidiscriminação nas mãos, uma enorme bandeira nos braços e um gigantesco boneco de três metros de altura nas costas. É com ele que desfila pelas ruas do Centro da maior cidade do Hemisfério Sul, propagando sua mensagem por um mundo que entenda e respeite as diferenças.

Ele, que adotou com altivez o apelido Glicério, bairro onde reside em São Paulo e local com a triste fama de ser reduto de mendigos, sem-teto, drogados e desvalidos, não alimenta a ilusão de que um dia o ser humano seguirá o bíblico preceito do amai-vos uns aos outros. Antônio prega o controle da intolerância. "Você não é obrigado a gostar de ninguém. Só precisa respeitar o direito do outro", diz ele, repetindo a mensagem gravada nas costas do boneco, um monumento contra a ignorância talhado em pano e canos de PVC.

Antônio já faz parte da paisagem paulistana. A cada dois sábados ele desfila com seu boneco pelos viadutos e calçadões do Centro de São Paulo. Também é assíduo em passeatas, comícios e manifestações públicas. Isso quando consegue uma folguinha da função de funcionário público. Entre suas façanhas, percorreu os 15 quilômetros da tradicional Corrida de São Silvestre carregando sua alegoria nas costas. Quase morreu, como ele próprio diz, mas conseguiu seu objetivo, que era fazer os brasileiros refletirem sobre o controvertido tema.

Como nordestino, o escrevente judiciário sofreu várias formas de intolerância, desde o dissimulado em forma de piada até o grosseiro, como este que motivou sua cruzada: "Trabalhava com uma psicóloga que se dizia minha amiga. Mas quando comecei a namorar outra colega de trabalho, essa 'amiga' disse que ela merecia coisa melhor. Falou que eu era um baianinho sem futuro e que ainda por cima falava com sotaque. Fiquei revoltado. Pensei em fazer besteira. Mas decidi que a melhor resposta era tentar conscientizar as pessoas da necessidade do respeito".

Dois outros acontecimentos contribuíram para que Antônio seguisse na mão única da tolerância. Na mesma semana em que sofreu a humilhação, viu um homem, com o filho pequeno ao lado, chamar um jovem engraxate negro de macaco. E, ao ir ao cinema com o filho, ouviu um pequeno grupo fazendo piadas e ironias com os nordestinos, gente de seu sangue.

Logo depois, apareceu no Tribunal vestindo uma camiseta com a inscrição "SP SP". Surgia assim o movimento "São Paulo Contra o Preconceito". Como toda causa precisa de um símbolo que a identifique, pensou no desenho de um rosto negro com um chapéu de nordestino. Aí chegou à conclusão de que ele próprio estava sendo preconceituoso. "Esqueci dos brancos. E entre eles há gays, gordos e deficientes que também sofrem discriminação. Daí pensei em desenhar uma carinha com a metade branca, a metade preta e o chapéu de nordestino."

Apesar da exposição pública, Antônio afirma que jamais sofreu qualquer tipo de ameaça ou agressão. Nem os punks e skinheads mexeram com ele. Pelo contrário. A iniciativa tem lhe rendido elogios e votos de apoio por onde passa. Problema até agora só com alguns espertinhos que se aproximaram dele para tentar obter vantagens. "Apareceu um assessor de um vereador que veio pedir meu apoio em troca de dinheiro. Disse que não faria isso. Aí o cara ficou nervoso e falou que eu era um trouxa e que iria morrer com esse boneco nas costas. Outro tipo chegou para mim e se ofereceu para montar uma ONG. Garantiu que isso dava grana. Contou que um gerente de uma entidade dessas ganha R$ 7 mil por mês. Não é esse o meu objetivo. Se for para ganhar dinheiro, minha causa perde o sentido."

Antônio sente o cheiro de um oportunista de longe. Por isso, sabe como lidar com sujeitos desse tipo. O que o deixa triste mesmo é quando alguém o ignora e não pega seus panfletos.

Ao ser informado sobre os resultados da pesquisa Ibope/Brasileiros, mostrou-se surpreso com fato de os entrevistados terem admitido ser preconceituosos. "Isso é legal. Normalmente as pessoas fingem que não são. O simples fato de admitirem já é um bom caminho."

Vítima direta da intolerância, o escrevente judiciário não concorda muito com as conclusões do grupo de nordestinos ouvido no levantamento. Houve quase consenso de que a discriminação aos migrantes vem diminuindo e hoje está diluída em piadas e gozações. "O errado, o feio é sempre associado ao nordestino. É sempre o baianinho que fez isso, o baianinho que fez aquilo. Pode até ser em tom de brincadeira, mas sempre com o intuito de diminuir."

"Cigarro me incomoda"
Outro dado relevante identificado pela pesquisa é o de que todos nós, em maior ou menor grau, estamos sujeitos a carregar algum tipo de preconceito ou estranhamento. Seguindo esse raciocínio, o "senhor tolerância" teria algum? "O que me incomoda é o cigarro. Acho uma falta de respeito. Sei até que é um direito a pessoa fumar. Mas também é um direito não ser obrigado a inalar aquela fumaça."

De perto, nem Antônio do Glicério é anormal.
Matéria publicada na 1º Edição da Revista Brasileiros (Repórter Chico Silva)
http://www.revistabrasileiros.com.br/edicoes/1/textos/456/